13 Abril, 2009

último exercício, afinal

"Mesmo de olhos bem abertos, eu não vejo nada", disse o mestre Zen.

Nesses exercícios procurou-se mostrar que ao mantermos nossos olhos bem abertos, com a ajuda da tecno-ciência e da auto-análise, nós deixamos de ver o que mais importa, o nada constitutivo de nossa condição e situação. Isso porque os procedimentos da técnica e da análise jogam uma luz ofuscante sobre aquilo mesmo que elas pretendem desvelar. A atitude que está por trás das ciências, das técnicas e das analíticas, revela uma forma de vida, uma forma de doação e de instauração de sentido e validade, que perfaz o nosso mundo atual, e que faz com que as coisas ao nosso redor e nós mesmos sejam o que são e vigorem: objetos e eventos funcionais, que estão aí para serem usados para se alcançar objetivos determinados. O mundo das coisas, incluindo aí as pessoas e o mais íntimo de cada um de nós, aparece nesse horizonte como um complexo de relações de meios e fins, de instrumentos e produtos, e as diferentes situações mundanas, e os seus objetos e pessoas, como oportunidades para a realização de algum interesse ou objetivo. O que se dá, o que acontece, nós o vemos e tomamos por algo para a satisfação de um gozo, por algo para um ganho.

Essa instauração de sentido e validade, de nexos de implicatividade, constitui uma fulguração de ser, uma fulguração que faz ser, que propicia um modo de ser e uma forma de ver e viver que é o que chamamos nossa vida, nosso mundo, e ao mesmo tempo invalida e renega outras formas de ser e de viver. Mais ainda, essa fulguração ilumina um aspecto do real, mas também assim esconde e cega-nos para outros. Isso é visível nos modos como nós menosprezamos e até recusamos, no plano racional e técnico, no plano do conhecimento científico e analítico, o real do sagrado, do político, do sexual, da morte, etc., aceitando apenas os seus discursos que se deixam traduzir analiticamente.
Por isso, posso dizer que essa fulguração é também ofuscante, embora ela seja encantadora e sedutora. As técnicas, as ciências, a vida planificada, analisada e por fim normatizada, fundadas no conhecimento de si e do ambiente, enfim, nos satisfazem em alguma medida, dão prazer e nós gozamos disso, nós gozamos com isso, nós gozamos. O seu regime de fascinação tanto nos abre um mundo de entidades, relações e sentidos, quanto nos fecha a possibilidade de ver e viver de outros modos. Fascinados, deixamos de ver inclusive os malefícios e estragos explícitos tanto quanto inevitáveis dessa forma de vida. Esse é o seu aspecto ilusório, pois nos faz ver como real aquilo que é apenas uma simulação parcial.

No entanto, o que isso tem a ver com a des-ilusão? Enfim, por que eu estou dizendo que há uma ilusão no próprio acontecer da desilusão que são a ciência e a análise? A ciência e a análise, como extirpação das ilusões, por acaso, não seria sempre um bem, não seria sempre positiva e frutífera? Sim, eu penso a desilusão como positiva, também. O desiludir-se sempre é um ganho. Agora, será que a positividade e o ganho sempre são o melhor, o desejável? Será que sempre nós temos de ganhar, vencer, superar, e, por outro lado, será que é sempre bom eliminar as ilusões? Essa é uma questão difícil, e desde Sófocles e, sobretudo, da figura mítica de Tirésias, a nossa cultura percebe e nota que às vezes é melhor “não ver”. Por isso, talvez tenhamos de inverter o dito do grande mestre da atitude analítica, Wittgenstein, e dizer: “Não veja, pense!”.
Todavia, desviemos o olhar desse urgência teórica. Antes, consideremos as ilusões que perfazem a nossa civilização, sobretudo aquelas ilusões provenientes justamente da nossa atitude cognitiva (científica, analítica e técnica) em relação à natureza e a nós mesmos.
Na configuração atual da visagem da vida, na conformação propiciada pela era tecnocientífica e pela consciência analisada, o gozo e o lucro constituem a mais valia, o a mais que nos torna plenos. A lógica, todavia, que subjaz a essa visagem não é mais aquela dos antigos, mas antes aquela que um Nietzsche e um Marx, a mais de um século, apontaram como constitutiva da vida social: a lógica da relação de compra e venda baseada numa lei geral de equivalência com o objetivo de alcançar um ganho. Além disso, nos últimos tempos, uma outra miragem, vigorosa e potente, tem configurado o desejo e o pensamento, a saber, a miragem da máquina reprogramável, mais especificamente, da máquina formal virtual, que pode ser completamente reprogramada e reutilizada como se fosse nova para novos fins. Esse tipo de dispositivo é a grande novidade da nossa forma de vida e, pode-se dizer, sem medo de errar, esse dispositivo por si só inaugura um novo período da tecnologia e da civilização, inaugura uma nova disposição e uma nova disponibilidade, nunca dantes navegada. Por isso, a partir dele tem se configurado uma nova imagem de si do humano, uma nova desejabilidade: o desejo de ser sem marcas, de ser reprogramável, ao ponto de as experiências passadas já não fazerem efeitos, já não terem valor para o eu que as viveu, e ao mesmo tempo, a ponto de se poder ser o que não se viveu ainda, livrando-se dos vínculos a um hic et nunc.
No cerne dessa miragem estão os procedimentos técnicos e analíticos. Pois, cabe e deve-se perceber que a técnica e a análise são aspectos de uma mesma atitude e desejo: a da revisabilidade e a apagabilidade do passado, com a finalidade de uma existência sem-memória, sem as marcas da experiência, uma existência sem rastros e traços. Isso aplicado tanto ao ambiente, no caso do espaço urbano, quanto ao vivente, no âmbito da genética, e também quanto ao eu, no espaço subjetivo. Nas suas múltiplas faces, pela técnica e pela análise, o visado é uma reprogramação que anule a presença significante do passado, tal como se quer pela medicina da estética facial, pela medicina genética, pela tecnologia da re-engenharia, nas quais o dado e o feito tem de ser re-disponibilizados, re-orientados e re-significados nas suas marcações e determinações mais profundas. O procedimento que permite essa passagem é a tradução para uma metalinguagem formal, na qual tudo pode ser expressado, isto é, que não resiste a nenhum significado, pois ela mesma não é um significante.
Daí se poder falar de uma sedução da análise e de uma fascinação da técnica. O que assim se sugere é que a técnica e a análise são os nossos modos de lidar com os problemas, com a urgência, e ambos sugerem a apagabilidade de todos os traços e resquícios, sugerem a re-disposição de todas as coisas e o redirecionamento das energias, sem restos. E que isso nos seduz e fascina, a ponto de nós mesmos não podermos resistir. Essa incapacidade de resistência é um sintoma positivo, no seguinte sentido: essa minha conversa apenas pode valer e ser compreendida sob as luzes da decadência da técnica e da análise. Pois, nos dias atuais, a atitude técnica e analítica, embora ainda seja constitutiva da nossa forma de vida, já não faz propriamente diferença, nós somos indiferentes a elas. O seu efeito liberador, e perturbador, que ela teve no final do século dezenove e primeira metade do século passado, já se esgotou como força antropomórfica. Daí que a hominização técnico-analítica agora passe a mostrar o seu lado destruidor e o seu sem-sentido. Isso agora aparece, mas justamente porque o seu império já começa a ser um impropério. Que esse efeito aniquilador da técnica e da análise sempre estivesse lá, o revela a grande acusação que Nietzsche desencadeou, ao indicar o cerne dessa atitude como sendo niilista.A união do ideal técnico e analítico perfaz-se no agora tão em moda mandamento da era digital cifrado nas palavras de ordem dirigidas à consciência e ao corpo: “Recicle-se”, “Reprograme-se”, “Renove-se”. Uma vez atingido esse estágio da vida reprogramável, da consciência da reprogramabilidade dos hábitos, manias e formas de pensar, consciência essa perpassada e constituída pela técnica e pela analítica, faz-se necessário uma nova forma de fixação e construção de um “si”, de uma “pessoa”. E aqui entra em cena a forma mais difundida de instauração de realidade no mundo atual, a resignificação pelas técnicas de propaganda.
A propaganda representa hoje o lugar de espelhamento no qual a nossa imagem se mostra com mais nitidez em todos os seus contornos, claros e sombrios. As diferentes dimensões da vida humana, e as suas diversas instituições, agora querem aparecer e valer via a propaganda, na e pela propaganda. A instituição da propaganda é aquilo a que nos confiamos, ela não pode falhar e está em todos os aspectos da nossa existência. Por isso mesmo, o seu ser bem sucedido, o sucesso de uma propaganda, deve estar fundado na apreensão do que nós mesmos somos, deve tocar naquilo que nós somos intimamente e lidar com os nossos mais profundos móbiles. Por isso, na ciência da propaganda conjuminam-se a mais alta tecnologia e a mais refinada psicanálise, com o objetivo de nos seduzir e fascinar sem que isso apareça como sedução e condução heteronômicas. Daí que a religião, a política, o comércio, a guerra, a ciência, a universidade e o ensino, estejam hoje capturados pelas técnicas de propaganda, pois a sua eficácia não pode ser superada ou descurada. Aliás, da auto-propaganda foi que se impurseram e se propagaram as grandes religiões do ocidente e do oriente. Até mesmo a moda, que durante muitos séculos sempre foi um meio pessoal ou comunitário de expressão, hoje constitui-se como propaganda de si; até mesmo a vida pessoal, particular, íntima, hoje se perfaz por meio dos mecanismos e técnicas e estratégias de propaganda. Os dispositivos digitais de relacionamento, os curricula on-line, os e-books, etc., ali cada um se apresenta previamente conformados pelas exigências e sob a forma da propaganda de si, que se propaga para inteira vida. Nós já não suportamos a nossa realidade e a nossa imagem senão na forma maquiada e transfigurada pelas estratégias de propaganda. A propaganda é a nossa forma de reprogramação e recriação espirituais.
Por isso, se pode dizer que o regime de fascinação que é o nosso constitui-se pela armação de esquemas de espetacularização da existência. Mas, a ilusão maior, vendida em todas as propagandas, em todas as instâncias da nossa vida pública e privada, é a de que se pode anular a ilusão, a dor e o mal-estar, e, por fim, anular a morte. Porém, esse ideal de uma vida sem mal-estar e sem-ilusão, mesmo que sem fim, agora omnipresente nas propagandas, praticamente perpassava já toda a história do ocidente. Durante séculos esse desejo foi materializado em certas figuras sociais: o herói religioso, político, guerreiro, sábio. Agora, em nossa época comercial e monetária, dos prestadores de serviço e dos funcionários do bem estar social e mental, o desejo de uma vida sem-dor e sem-ignorância materializa-se nos técnicos do bem-estar corporal e mental, atualiza-se nos dispositivos técnicos e nas técnicas de análise, todos eles operando uma metalinguagem formal sem-sentido capaz de subsumir todos os significantes reais sob uma regra formal de equiparabilidade geral. Nessa linguagem pode-se descrever a nova visagem da vida plena e longa, sem dor e sem sofrimento: não mais a morte; não mais a doença; não mais a tristeza; não mais o luto, não mais a dor, não mais as marcas indeléveis do passado – embora para isso seja necessário designificar-se de todos os significantes e desmarcar-se de todos particulares a um tempo, lugar e tradição. Essa é a forma pela qual nós nos reiteramos: somos a civilização da velocidade, do consumo instantâneo e do efêmero, mas nós mesmos queremos não passar, nós mesmos queremos durar para sempre, mesmo que num corpo sem-marcas, sem-dor, numa mente sem-ignorância, sem-tristeza, eternamente jovens e adolescentes, sempre re-significável! Sobretudo, não mais conflitos e angústias; daí a defesa consensual do pluralismo e do relativismo anódicos: não a verdade, não as regras!A nossa época sugere que a pessoa tem de se analisar, de expor e controlar todos os aspectos da sua vida, todos os ingredientes de sua comida, todas as relações de vida social, todos os níveis de substâncias de seu corpo, todas as intenções de suas ações e decisões, etc., sejam essas análises profissionais, sejam as análises e terapias de fundo de quintal, sejam as análises psicanalíticas ou psiquiátricas, clínicas ou não, médicas ou não – apenas uma vida, um corpo e uma consciência, submetida a uma analítica seria plenamente viva. O fato é que se trata de técnicas e prestações de serviço técnico que sugerem que é possível alcançar e realizar o “conhece-te a ti mesmo e a natureza das coisas”, e que essa realização seria a condição para uma vida melhor e para a superação do mal-estar e do mal-viver. Podemos denominar conjuntamente essa ilusão da atual vida consciente: a ilusão de um bem-estar continuado, livre de restos e rastros.

Todavia, a nossa sociedade é a da informação e do conhecimento, isso se diz, da comunicação instantânea e global, isso se diz, mas cada um de nós, individualmente, está mais isolado e ignorante acerca do modo como nós nos relacionamos, seja com o entorno seja consigo mesmo. Afinal, quem sabe como as coisas operam e acontecem, em nós e ao nosso redor? Ninguém, pois o fato é que em última análise a vida e a consciência restam inexplicáveis. Esse saber, entretanto, desgosta-nos; então, recorremos aos especialistas, aos técnicos; clamamos por novas Técnicas e novas Análises, chamamos no meio do dia e no meio da noite os seus operadores anônimos, pois na falta fatal do saber, eles são a nossa sabedoria terceirizada, transferida para um outro qualquer. Ao recorrermos ao analista para lidar com nossa mente, ao recorrermos ao técnico em eletrodomésticos para lidar com o computador, ao fisiculturista para tratar do nosso corpo, ao advogado para lidar com a lei, ao segurador para os riscos, ao financista para as finanças, etc., nós mesmos, individualmente, afirmamos e ampliamos nossa ignorância, e com o mesmo gesto fazemos pose de pessoa atualizada.
Desse ponto de vista, podemos falar de uma ilusão intrínseca à civilização atual. Essa ilusão nos pertence, pois ela acontece em função daquilo mesmo que nos constitui, ela é uma consequência da nossa constituição, da nossa forma de vida. A lista é grande: a ilusão da vida tecnológica plena; a ilusão da vida plenamente analisada e terapeutizada; a ilusão da individualidade potenciada pela técnica e pela análise; a ilusão de que podemos transcender o corpo por meio dos dispositivos tecnológicos; a ilusão de que podemos voltar a ser plenamente naturais, pela via da técnica e da análise; a ilusão de que o saber consiste em dominar uma técnica e em analisar-se; a ilusão da erudição, a ilusão de que basta citar e conhecer o que se disse em outras épocas e terras, que basta citar e ler os pensadores da moda para saber, para se saber; a ilusão de que alcançamos a era do conhecimento de que o conhecimento e a verdade são invenções, mentiras, ilusões, mera literatura, portanto, deletáveis; a ilusão de que o <pensar por si mesmo, nos dá o saber; a ilusão de uma characteristica universalis, da calculabilidade e conversibilidade total. Todas essas ilusões podem ser remetidas, sempre de novo, ou à tentação técnica ou à tentação analítica. Por trás delas está o desejo excessivo de conjugar numa metalinguagem a cifra do mundo e da vida pela qual se poderia instrumentalizar o ambiente, por meio de sua disponibilização técnicaexplicitar-se e dominar a si mesmo por meio do conhecimento analítico de si.
Agora, onde estão as raízes dessa atitude, dessa sanha que nos assanha? O fato é que o animal humano é uma forma de vida que encontrou no desacoplamento estrutural com o entorno a forma mesma de viver, sobreviver e se expandir. A forma pela qual o animal humano se vincula ao entorno natural não é mais natural e instintiva, mas não porque ele possui uma forma artificial: antes, é na forma mesma da alterabilidade da vinculação que ele se mantém. Ele não apenas modifica constantemente a forma de acoplamento vital como altera a forma de sentir e apreender o entorno, ou seja, modifica a sua própria consciência, além de ser capaz de alterar a forma de se relacionar e interagir com os outros humanos, modificando o modo de se comunicar e interagir. Isso redunda nas duas características básicas de um humano adulto: capacidade de alterar o seu curso de ação e capacidade de alterar o seu curso de pensamento, ambas aplicadas na modificação da relação com o entorno e da relação com o outro. Hoje, nós realizamos essas duas potências por meio da técnica e da análise. A percepção dessa condição como fonte de mal-estar e de miséria tem levado os seres humanos a constantemente buscarem a modificação de seus vínculos e relações, fundadas na idéia de melhor, de progresso para uma situação pacificada e harmonizada. A tentativa de contornar os efeitos dessa condição gerou a idéia de que o humano não é natural, não pertence à terra, que o homem é espírito, pertencendo a um âmbito não-natural; mas também é a fonte daquele sentimento atávico, saudosista, em relação à uma imaginária situação em que o humano era tão somente natural e estava vinculado e unido ao seu entorno de modo imediato e harmônico. Nessa mesma linha, hoje se apresentam duas atitudes básicas, em conflito, em relação ao melhor e ao futuro para a humanidade. Por um lado, a exacerbação do desacoplamento através da técnica, da ciência e de formas de vida sofisticada e plenamente administradas; por outro, a idéia de uma volta à natureza, de uma vida humana religada e integrada ao entorno natural. Muitos já denunciam que essas duas vias são inviáveis no seu excesso. Que durante milhares de milhares de anos, o animal humano tenha se jogado para frente se perdendo e noutras se jogado para trás, decaindo, não nos consola em nada, por mais que os atavismos que tornam as antigas culturas e velhas práticas pululem por todos os lados. Dessas tentativas fracassadas, quem sabe? O fato é que nem o retorno total nem o avanço final são exeqüíveis para a nossa constituição. Tanto a via do retorno à pura naturalidade, como queriam Nietzsche e os cínicos, quanto a via do avanço para o além da natureza, são para nós apenas tentadoras ilusões. Se hoje o apelo à volta à natureza aparece como sedutor, isso acontece pelo exagero da técnica que avança cada vez mais para a realização de uma vida humana quase desvinculada da biosfera terrestre e dos processos naturais. Embora o que há além do horizonte, nos dois lados, seja impensável para nós, essa des-relação nos lança para fora do nosso centro. Trate-se da ilusão que a desilusão técnica nos permite e até nos impõe, aquela de uma vida para além da biosfera; trate-se do atomismo individualista levado ao extremo; ou da ilusão de poder eliminar os traços do nascimento e da morte, a ilusão da vida eternamente adolescente transmitida ininterruptamente, pela mídia de alta definição e ultra-rápida, de nenhum lugar para todos os lugares, que traz em si a ilusão da omnipresença em todos os tempos e lugares, ou seja, a ilusão de uma vida que eliminou todos os traços de lugar e época, e todas as marcas do passado. Essa é a ilusão da desilusão completa, a de uma existência sem nenhuma inscrição. A ilusão de que uma reprogramação completa é possível, sem deixar rastros e sem resquícios. A tradicional auto-imagem da pessoa, fixada nas palavras “caráter” e “personalidade”, as quais tinham como componentes semânticos essenciais, por um lado, a idéia de que as experiências e vivências constituíam aos poucos uma substância individual pessoal e, por outro, a idéia de que as relações e os sentimentos marcavam e deixavam vestígios indeléveis em cada um, aos poucos configurando uma pessoa singular, com uma memória e um jeito únicos, essa imagem agora se dissolveu e não mais nos tenta. O que se quer e se exige agora é a pessoa sem restos e sem marcações, cuja altivez consiste justamente em passar pela experiência da vida sem se macular. Todos queremos ser folhas sem inscrições, repreenchíveis sem representação nem repreensão. Todavia, embora seja em geral pintado com traços melancólicos e negativos, esse movimento do nosso espírito é também criativo e liberador.
Pois, o que se quer é a realização do espírito humano, aquele espírito do animal capaz de modificar as suas relações com seu meio ambiente, capaz de mudar seu meio ambiente, e, sobretudo, o do animal capaz de mudar a forma pela qual se relaciona consigo e com os outros, isto é, capaz de reconfigurar a própria consciência e a própria linguagem. De certo modo, e a contrario, realizamos agora a figura do humano que é um “eu sem ser um si-mesmo”, aos poucos abandonando as velhas peles e couraças defensivas do espírito, agora desnecessárias. O espírito se tornou mais forte, e por isso já não precisa mais das antigas proteções. O fundamento desse novo espírito é a nova metalinguagem formal sem-sentido e reinterpretável ad infinitum, assim como as concreções mais efetivas são as novas máquinas virtuais reprogramáveis e redirecionáveis:
não são os nossos produtos, os nossos instrumentos mais característicos, justamente aqueles aparelhos e dispositivos reprogramáveis e refuncionalizáveis, como os computadores e chips e memórias digitais? A quintessência da nossa cultura não está justamente nas máquinas reprogramáveis? Então, porque recusaríamos a imagem do si que aí se reflete?

Além das máquinas virtuais, imateriais, um outro objeto, na verdade um não-objeto, pois é pura função e relação,inteiramente reinterpretáveis, cujos suportes substanciais são supérfluos, efêmeros e descartáveis, essa figura da relação funcional pura, antes mesmo de se plasmar nas mercadorias e aparelhos, corpos e mentes, está entre nós e dirige nossos corpos e mentes já faz um bom tempo. A figura e o esquema da moeda, do dinheiro, que nos nossos dias é virtual e não mais substancial, diariamente nos ensina o como devemos ser e viver. O dinheiro atual, e o mercado financeiro global, não tem lugar, peso, cor, dono, é uma pura forma, pura virtualidade que nenhuma atualidade pode reter: potência pura que nenhum ato ou fato pode esgotar, – eis o reflexo do novo espírito.
A nova imagem da pessoa reprogramável, sem marcas e lastros, e o ethos respectivo da atitude descolada e globalizada, sem dúvida, constituem um passo a mais na liberação do espírito. Agora essa liberação e jogo livre não mais são vistos como uma fase de experimentação e passagem; antes, constituem a condição a ser fixada e mantida, a forma mesma de se ser humano. Um ser humano sem marcas e compromissos do passado, e sem empenhos e sinais para o futuro. Logo, um ser humano sem culpas e ressentimentos, e também sem esperanças e expectativas. Não tenhamos dúvidas, o animal humano sempre foi isso, quando comparado com os demais, e esse passo apenas o leva a se tornar aquilo mesmo que ele é.
Não há dúvidas, porém, que hoje estão no ar duas tentações, ou tentativas, configuradoras do humano que podem ser ditas não éticas. A primeira, ativa e mais explícita, implica a tecnificação e artificialização da vida. A segunda, reativa, sugere a renaturalização do humano. Ambas são fascinantes. Cada uma delas brilha na exata medida em que se contrapõe a outra. Tornar-se artifício, tornar-se máquina, superar a fase biológica e as fraquezas do corpo pela assunção de regimes algorítmicos, matemáticos, isso seria uma forma de transcendência da vida em direção ao perfeito. Ou então, tornar-se natureza, tornar-se corpo vivo espontâneo, superar a fase cultural e as fraquezas da razão pela assunção de regimes sensíveis, emocionais, isso seria uma forma de transcendência da vida em direção à perfeição.
Estes dois fascínios atuais são ilusões nascidas das duas indeterminações constitutivas da nossa existência: nem a nossa corporeidade nem a nossa mentalidade são fixadas de antemão. Seja no interior da floresta amazônica seja no centro da capital japonesa, seja ontem, hoje ou amanhã, um recém nascido apenas se tornará humano, necessária e incontornavelmente, na medida em que for agenciado por uma sistemática coerção, implícita ou explícita, por parte de outros humanos. O que se exige da vida viva: torna-te humano. Eis o imperativo. Eis a carência. O exagero da determinação da mente nos conduz ao desejo da razão matemática; o exagero da determinação do corpo nos conduz ao desejo do corpo espontâneo. Ambas essas determinações são necessárias para uma forma humana de vida. Agora, o seu excesso conduz à morte, da vida ou da mente.
O que não está dito é que, após o processo de configuração da forma de vida, aquelas indeterminações continuam lá, intactas, indenes. Daí o grande perigo tentador, o de confundirem-se as coerções que perfazem a vida humana com a essência do humano vivo. Somos vida-consciente, e uma vida digna é tanto consciência quanto vida, tanto viva quanto consciente. Mas, se é assim, então valeria aquele princípio antitético: para vir a ser humano, deves ser tu mesmo, isto é, deves tornar-te um eu único, pois essa é a única maneira de manteres aquelas indeterminações fundantes. Tornar-se humano, aqui e acolá, passaria pela superação da fase propiciada pela cultura e pelas regras de coerção, pela ultrapassagem daquilo que se apreendeu com e dos outros: implica assumir-se como indeterminação, como diferença, tornar-se consciente desse aberto da vida e da mente, pois o contrário seria a morte do corpo e do espírito, ou a vida de inseto.
Agora, porém, o instituído é a cultura da alegria, do gozo e da felicidade garantida e com seguro contra imprevistos. Pode-se comprar pacotes de vida feliz e gozosa. Há templos de alegria, de prazer e distração. Por isso, embora recusemos o moralismo socrático e a esperança cristã, nós, tal como Diógenes, acendemos as lamparinas em pleno meio dia, e tal como Lampião, usamos óculos escuros no meio da noite, pois as fascinações do dia e os êxtases orgiásticos da noite obscurecem e turvam a vista. A fulguração ofuscante do atual regime antropomórfico exige esse trabalho destruidor. Enquanto pessoa singular temos de recusar esse genérico que está aí, e enquanto coletivo também, pois nem como indivíduos nem enquanto comunidade somos satisfeitos.

A ilusão de uma vida da qual se apagaram todos os traços do outro: da pertença à tradição. A ilusão de uma vida sem os traços da bios animal, uma vida que extirpou de si a pertença à biosfera. Enfim, a ilusão de uma vida sem os traços do barro: da pertença à terra, expressa no vetor principal das pesquisas tecnocientíficas atuais: o vetor da independentização da vida humana em relação à biosfera e aos ciclos da vida animal. Em todas essas ilusões está em jogo a pretensão humana de alcançar uma posição e uma condição sem-ilusão, sem engano, ou seja, de conhecimento pleno, de controle total, de desilusão. A nossa época, por conseguinte, é a época em que se acredita numa existência desiludida, por conseguinte, na medida em que apenas a natureza e os deuses não sofrem, nem de ilusões nem de misérias, trata-se da crença em uma existência pós-humana.
Renegar esse desejo como ilusão e repor o sentido e a desejabilidade da vida efêmera e frágil, precária, aqui e agora, resignificar a existência como corpo vivo e consciente constituído na experiência, cujo significado advém de suas marcas e traços, isso é o que nos resta depois da ultrapassagem das tentações da religião, da política, da arte, e da tecnociência.

04 Dezembro, 2008

onde está o erro ...

Os "sábios" de sempre, em todos os lugares, têm respostas para as perguntas mais fundamentais: "qual o sentido da vida?" "o que há depois da morte?", "para que estamos aqui?", "o que fazer?", "por que há algo ao invés de nada?". E suas respostas são sempre diretas, como aquela do sábio do Tibet para o exausto andarilho que lhe perguntou pelo sentido da vida: "a vida é uma fonte". Estupefado, o cansado viajor replicou, "mas isso é ridículo!" O "sábio" imperturbavelmente treplicou: "E não é?", ou "Então, não é." Isso revela o segredo secreto dos sábios, do Himalaia ao Olimpo, dos Alpes aos Andes, na exata mesma medida que desvela a pretensão dos conhecedores (cientistas) de todos os tempos e lugares, aqueles capazes de provar as suas respostas e que exigem provas de tudo, não se contentando com apenas trovas fulgurantes. Um sábio não tem idéia de nada (Jullien), e por isso dá uma resposta qualquer, que é sem sentido para os que querem um conhecimento objetivo e certo, ali onde "o conhecedor" dá uma resposta certa e verificável, mesmo como falsa. O problema é que não há resposta para essas questões. Logo, a atitude incerta, e até insana, do sábio, é a certa! Todavia, não se apressem a gozarem as cabeças ocas: são essas perguntas que não têm respostas, e não todas, - como falam excessivamente por aí os diaristas, cínicos ou céticos.

01 Dezembro, 2008

A crueldade imponderável

De todas as maneiras que uma pessoa pode ser cruel com outra, sem dúvida a leviandade é a pior. Isso porque a leviandade atua pela leveza, pela delicadeza até, e por isso não se pode revidar senão com outra gentileza, embora se esteja sangrando em negro sangue. A pessoa sorri, só ri, te beija a face e baixa os olhos, mas na real está te dizendo não e te cravando a faca. Não há defesa contra essa crueldade. Apenas um corte seco e instantâneo te pode proteger, sem, contudo, impedir o golpe e a dor. Que a própria pessoa não seja consciente da sua crueldade é a regra, mas há aquelas que sabem que assim ferem mais e de modo mais doído.

27 Novembro, 2008

a regra da academia

Desde Platão, sabe-se que aquele que deseja e busca - o faz porque é carente, porque é um ser-em-falta. Isso explica as atitudes das pessoas que estudam ética e política, das pessoas que estudam lógica, estética, e blablabás! Pois, não é bem comum alguém ter um problema e automaticamente achar que deve estudar logo esse problema, e ainda pensar que tem vocação para isso, que tem o "dom" quando na verdade tem a falta! A confusão entre vocação e paixão, entre disposição e necessidade, essa ilusão é difícil de extirpar tanto quanto é fácil perceber a falácia do raciocínio: "ele pesquisa ética, logo é moralmente confiável." A vida acadêmica está viciada por esse típico capricho, e a cada ano novas mentes se perdem porque pensam que investigar aquilo em que são carentes as tornaria plenas.
A real é que se a pessoa não tem caráter não será por aprender a caracterizar que ela o terá!

19 Novembro, 2008

Embora culto, ainda cruel

A alta cultura não é um antídoto eficaz contra a bestialidade e a crueldade. A história da humanidade, em todos os cantos da terra, mostra que os picos de violência insana coincidem com os cumes da cultura dita superior. Veja-se os exemplos dos atenienses na ilha de Melos e os alemães nos tempos nazistas, para citar apenas dois de vários casos. A alta racionalidade não impede, ao contrário, potencia a maldade. Isso se vê nas inter-relações entre os doutores na vida acadêmica, onde a hipocrisia, a maldade e a estupidez são a regra. A alta cultura nos projeta para além da animalidade e isso torna possível uma maldade e uma estupidez do além!
Os cultivadores bem sabem que o cultivo pode estragar o broto e transformá-lo num monstro. Na verdade, a atitude dos humanos em relação ao meio ambiente e aos outros humanos, na regra geral, hoje revela o excesso de cultura, técnica e razão a ponto de perverter e sufocar a vida. Que a vida e as condições da vida sempre foram tidas como entraves para o espírito, isso se sabe justamente pela alta filosofia que, sempre tem, desde Platão, alguém de plantão para justificar racionalmente as maiores barbaridades, em detrimento da vida! Não, também a filosofia não pode evitar a estupidez, e muito menos curá-la.

18 Novembro, 2008

Cruel, porque cru!

A crueldade humana, a estupidez, a bestialidade e a violência, que presenciamos agora todos os dias nas tvs e jornais, sempre esteve aí. Não se trata porém de uma natureza, mas ao contrário de ausência de cultura. Os humanos há muito tempo deixaram de viver segundo as condições naturais e foram acumulando e construíndo uma segunda natureza. Esta natureza aculturada tem de ser ensinada e imposta aos novos humanos, ela não cresce sozinha. Daí que nós agora precisamos ser cultivados e treinados sistematicamente até a fase adulta e depois se auto-educar até o fim da vida. Nossa condição humana é frágil e facilmente se perde. A crueldade humana pode advir da falta de cultura, pois sem a aculturação nós somos bestas estúpidas no sentido de estarmos aquém dos animais e plantas, pois nesse estado não temos nenhuma natureza; e também pode advir dos equívocos da cultura de uma forma de vida. Afinal, o cultivo de uma forma de vida pode dar errado, ou seja, a forma pode ser inadequada à vida. O ser vivo que nós somos pode se rebelar contra a forma que a cultura nos impõe, ou ainda, a forma (regras e esquemas culturais) pode ser mal posta (ensinada) e o resultado ser um retorcido mal cozido. A meu ver, a violência e a estupidez hoje cotidianas é o resultado tanto de uma forma cultural inadequada quanto da insuficiente aplicação do cultivo às novas vidas. Digo isso sabendo que vou contra os libertários e os naturalistas anticulturalistas tão em moda na cena atual. Se insisto nisso é porque sei que o humano não existe naturalmente e, sobretudo, não subsiste sem o cultivo reiterado.

12 Novembro, 2008

não o cru, mas o cruel

A natureza pode ser perversa, pervertida, cruel, má? Muitas vezes falamos assim, atribuindo à natureza tais predicados. Todavia, isso talvez não tenha sentido. Pois, tais predicados cabem apenas a um ser consciente de si e do como ele afeta os demais nas suas condições afetivas e de existência. Agora, se não quisermos nos catapultar para fora da natureza, nós temos de pensar sobre a origem da nossa crueldade e malinidade. Isso faz parte da nossa natureza? Ou foi uma invenção histórica? Ou um dom do além? Nenhuma dessas resposta é satisfatória. Não temos uma história, uma natureza, um além, que garantiria essas diferenças em relação às outras naturezas. Logo, é forçoso concluir, a palavra “cruel” diz muitas coisas diferentes. Talvez fosse mais sensato dizer que a natureza é crua, o humano cruel, que a natureza é o verso, o humano o perverso! Um ser humano que se comporta tal qual um animal, planta ou pedra rolante, diz-se, é uma besta estúpida. Mas, um animal, planta ou pedra nunca são bestiais ou estúpidos, embora essa fala sugira isso. Note-se, contudo, que disso não se segue que as naturezas sempre sejam “boas” ou “não-violentas” ou “não-destrutivas”. Ao contrário, ao contrário. Justo esse é o cerne do adjetivo “besta estúpida” aplicado a um humano: o agir tal como uma pedra rolante, uma planta ou um animal na sua deriva vital, sem sopesar o que está fazendo, isto é, sem fazer o nexo entre a ação, as condições da ação e as consequências da ação, sobretudo no que se refere aos outros, sejam eles quais forem. Assim dizemos que o comportamento humano atual em relação ao meio ambiente é o de uma besta estúpida, e com razão. Contudo, não diríamos isso assim, sem aspas e reticências, de uma bactéria que no seu afã vital destrói toda a vida ao seu redor até solapar a sua própria. O humano é cruel em relação as outras espécies, a bactéria é o que ela é. O pressuposto dessa distinção é que nós podemos diferente, e ela não. Dito de modo mais específico: o pressuposto é triplo; primeiro, que nós podemos ser conscientes da direção da nossa deriva, e, segundo, que nós podemos alterar essa direção, pois, terceiro, nós podemos alterar a forma e o sentido de nossa existência. Essa é a nossa natureza, aquilo que nos faz distintos de uma pedra, de uma planta e de um animal. O predicado “besta estúpida” nos lembra, a contrario, dessa distinção, ao indicar a falha. Todavia, ainda assim vale que para nós “voltar a ser naturais” é tão inumano e ilusório quanto “deixar de ser naturais”. Frente à crueza natural, que tanto nos repugna e atrai, não nos resta senão apostar no queimar o barro. Embora não possamos abandonar a lama, nem por isso a desejamos crua. Essa é a crueldade que nos constitui como não-crus!

11 Novembro, 2008

entre o cru e o cruel

nós oscilamos. Diz-se, apenas o humano pode ser bestial. E assim indicamos a inumanidade da natureza, pois com a palavra "besta" tanto dizemos "sem modos humanos" quanto dizemos "qual uma fera". O fato é que a natureza não é "impiedosa", "cruel", "violenta", etc., pois esses predicados apenas valem para algo que poderia ser piedoso, amoroso, pacífico, etc.
As mais das vezes, nos tenta a ilusão de "ser plenamente naturais", cansados que estamos de "ser plenamente humanos". Nem um nem outro, porém, nos cabe. No meio do caminho sempre tem uma pedra, e em torno dela giramos, zigzageamos, para lá e para cá.

14 Setembro, 2008

O equívoco do poeta ...

O mundo é um moinho (Cartola)

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares est(ar)ás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés

- A verdade dessa canção diz muito sobre a vida dos jovens e das jovens que se entregam às tarefas românticas que o nosso tempo propicia: ser modelo, cantor, atendente do bar da hora, professor de estética e dançarina club, etc. Esses serviços sugerem uma saída da rotina e do trabalho vão. Apenas sugerem, pois quem os protagoniza é sugado e consumido tanto quanto o são o motoboy e a diarista. Porém, o poeta esquece de si ao dizer o que diz. Pois, as mais das vezes, para não dizer sempre, a única saída para a pessoa dotar de valor e sentido a sua vida, quando ela é vazia e sem fim, consiste justamente em se deixar sugar e se esvair para a satisfação de outrem. Na medida em que o orgulho impede essa doação para o outro reconhecido, resta apenas esse entregar-se ao público anônimo! Daí que não se trata de um afundar-se no abismo, mas na tentativa de sair do vazio e, assim sendo consumida, ganhar um sentido. Todavia, esse queimar-se para o outro implica em deixar de ser um si, pois o que se quer é uma bela figura, um jeito, um modelito da moda, e acima de tudo uma fala macia que nunca diz não!

Homo faber, ou o humano reduzido

Para os antigos gregos, inventores da filosofia, diz-se, o trabalho tinha um valor negativo, quase de maldição mesmo. Hoje, quando alguém quer valorizar alguém, diz: ela trabalha! Como se o Trabalho não pudesse ser também a ilusão, a alienação e a forma mesma da vida diminuída. Agora, se o trabalho é o doador de sentido e valor para a vida, então, essa vida mesma não tem valor, ou então, se confunde com o próprio trabalhar! Que essa seja a concepção que subjaz à forma de vida fundada na produção e no consumo, e que é por ela validada, todos nós sabemos. A vida reduzida ao trabalho e ao consumo é o que nos resta nesses tempos pós-religiosos e pós-políticos. Os sem-noção logo se apressam e falam dos prazeres, das vivências, dos altos estados da consciência drogada, como alternativa, sem perceberem que esse é apenas o reverso do verso da vida reduzida. Isso se vê quando a pessoa resolve trabalhar para sustentar o vício, e ainda mais quando o trabalhador cai no vício para aguentar o tranco. Um trabalha para sustentar o pico, o outro se dopa para suportar o pique! O que é comum a ambos? A falta de um-ser-si-mesmo. A vida em tom maior, a existência em grande estilo, todavia, em todas as épocas e lugares, fez-se à margem do ardor do trabalho e também à margem do prazer dos estimulantes, pois ela consiste sempre em evitar tanto o fascínio dos labores quanto a fascinação fumos e tambores.

30 Agosto, 2008

Pequenas vantagens, míseras!

O bom do ensino à distância é que você não precisa conhecer o vazio do Campus universitário e também não o deserto da Sala de aula. Sobretudo, não precisa se enfeitar com as roupas e frases da moda!
Agora, comparados com os de lá de fora, esse vazio e esse deserto são como que uma floresta de árvores frutíferas!

O lance cult do vazio universitário

Nas ciências exatas, perdem-se em abstrações vazias, e isso é muito interessante e estético, mas o interesse é técnico, e dá um dinheirinho. Nas ciências aplicadas, o que vale é o tecnicinismo dos dispositivos inúteis, mas que distraem, embora destruam tudo ao redor. Nas ciências humanas, vai-se em busca do simplório e das banalidades cotidianas, tudo com o rigor científico de uma entrevista de crianças, mas com alguma erva da boa. Nas letras, o Citacionismo como forma de ostentação de cultura e a algaravia do Invencionismo como meio de afetar as “meninas” inteligentes e vazias - a assim chamada fofoca literária. E na filosofia, nada senão discursos sem fim sobre o nada!

Não é por acaso

- nem sequer por delicadeza que Zig usa um tom evasivo e procrastina. O fato é que Zag não trouxe o calmante, e o outro subiu o morro e já está vindo, e ainda não impõe condições.
- nem por mera coincidência que Zag dispensou Zig. O fato é que Zag ficou com Zig por mero interesse sexual, queria uma aventura, queria provar do Mel do Melhor.
- nem por necessidade que Zag e Zig se ex-plicitaram. O fato é que as gentes hoje não têm mais nenhum compromisso umas com as outras. Cada uma dá o que pode dar, cada um recebe o que pode receber. Deu o que tinha pra dar, sai da fila. Hoje é assim!

- nem de graça que você vai ao analista e usa calmantes e se embriaga diariamente: a sua mente (Zig) não consegue mentir para a sua mente (Zag) - então, cê usa o subterfúgio fugidio das distrações, entre as quais está o se deixar seduzir pela ilusão que o outro lhe oferece.

14 Agosto, 2008

A vida dopada, se pode recusar.

Zag diz pra Zig que está insatisfeita, que não está contente com a relação. Zig responde sorrindo: é isso que eu lhe posso conceder, eu tenho muitos compromissos, quem sabe depois, ... você tem de entender e aceitar, essa insatisfação não é normal, vá se tratar, procure um terapeuta!
Zag lhe diz: a minha insatisfação é com a falta de completude e de inteireza. Se eu me dopasse e me analisasse, talvez eu pudesse restar contente com os restos e as sobras de seu afeto e de sua disposição. Não, não estou satisfeita e isso é sinal de que estou viva, de que ainda percebo a diferença entre o simulacro de uma relação e a real. Posso tomar um calmante, me drogar e anular minha consciência com doses diárias de dopadores, mas isso ainda exigiria a dissimulação e a mentira para mim mesma e para você.
Zig, como sempre, responde mais ou menos assim: você sempre a me cobrar, deixe rolar....
Zag percebe o tom evasivo e leviano, e se afasta desiludida, mas sentindo-se outra vez livre. Para ela, agora o Iki/It de Zig, que antes a seduzira, tornou-se mero pó de arroz, only fake, dopping, revelando-se apenas uma máscara, uma pose vazia!

- Quem hoje tem a coragem de revidar assim como faz Zag? Não é essa atitude algo antiquada? Exigir isso, relações totais e vida sem dopadores, não é exigir demais do tipo de gente que hoje a gente pode encontrar nas esquinas e bares?
Ora, a necessidade de terapias, análises, drogas e dopadores, ela mesma é um construto contingente, questão de moda e de imposição social. Em todos os tempos os insatisfeitos e descontentes foram acusados de doentes e loucos, e os remédios postos como a única forma de cura. Todavia, também é fato que aqueles que não se submeterem e agiram, ao invés de se doparem, viveram bem e até melhor.
Isso para não falar da grande maioria das gentes que vivem e morrem sem nunca chegar perto de um analista ou médico!


02 Agosto, 2008

A vida pré-agendada

Vida e pensamento são as expressões para nomear apropriadamente o que de si e por si mesmo agencia e "age". Todavia, a vida nua e o pensamento ativo não se dão facilmente e sem esforço, pois em toda parte vigora a regra da cultura que fixa a agenda da vida em comum para os vivos e estabelece a pauta para o pensamento comunicável dos pensantes.
A vida plena e o pensamento efetivo, para acontecerem, têm constantemente de romperem esse agendamento prévio; do contrário, perdem-se na faina vã da rotina da mesmidade medíocre ordinária. A nossa condição não é diferente daquela dos tempos idos, em que a vida e o pensamento estavam capturados pela agenda religiosa. Basta ver como o Calendário civil nos constrange e conforma, por meio do apelo da convivência conivente com a situação.
E você vai ao bar, seja como usuário, usurário, ou atendente - mas isso é o que hoje se tem de fazer para cumprir a ordem do dia, para ser da turma cult. E você põe um prego no nariz, e faz uma tatuagem: tudo kitsh e imitado como um pinguim sobre a geladeira.
Ir ao bar, beber e conversar, fazer o que está na moda, que é da hora, fazer parte da Cia. Cult, estar dentro, etc. e outras baboseiras - tudo isso apenas indica qual é a pauta do dia para a vida e para o pensamento. O que é pior, indica que você apenas é o que os outros dizem para você ser!
Agora, você está vivo e pensando, ou está apenas seguindo a moda do instante e das gentes?

31 Julho, 2008

Para os íntimos

"Es que no puedo figurarme jamás a un pensador sin suponerlo desgraciado en el fondo. Para mi el talento elevado siempre es presa de dolores íntimos, por más que ellos se oculten en los recónditos pliegues de un carácter sereno. La energia moral, por victoriosa que salga de su luchas con los obstáculos de la suerte y con las pasiones de los hombres, siempre queda herida de esa enfermedad incurable que se llama la tristeza; enfermedad que no siempre conocemos, porque no nos es dado contemplar a veces a los grandes caracteres en sus momentos de soledad, cuando dejan descubierta el alma en la sombra del misterio." (Ignacio Altamirano, La navidad en las montañas).

Me lembrou uma amiga essas frases. E quem percebe nelas uma verdade tem de ser uma pessoa especial.

26 Julho, 2008

do desejo que satifaz

Encontro Zag, em euforia por demais, e ela logo me diz sem me deixar falar, que tudo vai bem, que basta deixar as coisas rolarem, deixar fluir, e disse ainda outras dessas bobagens de adolescentes descompromissados e de revistas para mulheres femininas. Todavia, eu lhe pergunto, como quem chegou depois: e tu, vais bem?
Ela falou mais 15 minutos sem parar, mas disse mais ou menos o que Musil escreveu assim:
“Não sei como dizer. Será que é porque a vida fica mais fácil quando não ligamos para sentimentos, mantendo simplesmente nossa rota; ou será que é um prazer maligno levar em conta os sentimentos, em vez de sofrer com eles? Parece que estou sentindo a alegria do Diabo, quando joga um punhado de sal na ambrosia da vida!”
Não consegui evitar o pensamento de que Zag se deixava levar pelo desejo de ter razão sobre o desejo, tanto quanto Zig pela falsa razão do desejo indesejado.
Infelizes inocentes!

25 Julho, 2008

Desejabilidades

Encontro Zig e ele me diz as suas mazelas. Enfim, pergunto: mas afinal, o que mesmo lhe deixa mal?
Zig olha para os lados, e me diz quase sussurrando:
- O mal advém apenas das pessoas que dizem não!
Me diga a pessoa leitora, o que eu poderia dizer diante da verdade?
Disfarcei, sorri, e lhe disse: isso merece uma conversa demorada, mas agora não tenho tempo!

02 Julho, 2008

O que se espera nesses tempos atarefados...

A vida atual das pessoas está marcada por compromissos e afazeres e obrigações funcionais, e por exigências da moda e da vida culta. A vida individual se pulveriza em papéis, metas e funções: a sua substância e existência são essas imbricações, se dão nessas relações e implicações. Daí as pessoas dizerem: Eu preciso fazer isso, Você tem de fazer tal coisa, Sem isso não se vive, Sem aquilo eu estou fora, etc.. Nessa onda as pessoas deixam de viver por si para se entregarem ao mundo dos empenhos e desempenhos, sem perceberem que são sugadas pelo redemoinho da vida social e das exigências da praça. E quando surge a abertura para uma vida plena com outra pessoa, o que exige um tipo de atenção especial, isso é adiado e barrado, pois há sempre muito o que fazer e por fazer, sempre há tantas outras relações imperdíveis. Talvez, uma horinha por semana, quem sabe no ano que vem, talvez nas férias... O fato é que nessa vida, não há tempo para uma relação de prestação total, no sentido de Mauss, de entrega e doação plenas. Não por acaso nossa época precisa tanto do analista e dos farmacos e sobretudo das drogas da hora. Todavia, bem no fundo, as gentes sempre fazem as suas continhas, elas querem se dar bem e, sobretudo, não perder nada. Pagam uma hora por semana no analista, e dedicam outra para o amante e outra para a namorada, e assim, na vã tentativa de abraçar o mundo, deixam cair e pisoteiam o melhor e o mais delicado. Ao se entregar às múltiplas relações, se evita o árduo trabalho de constituição de si, de um si-mesmo, pois a pessoa agora não é senão o plexo das complexas relações e relacionamentos que a entretém. Querer tocá-la fora desses nexos é como querer passar pelo arco-íris!

08 Junho, 2008

Exercício 54

Não esquecer de ler e reler, como não, o poema 39 de Kaváfis:

O quanto puderes

E se não puderes fazer tua vida como a queres,
Esforça-te pelo menos
o quanto puderes: não a rebaixes
ao imediatismo excessivo do mundo,
às movimentações e discursos desmedidos.

Não a rebaixes levando-a,
a dar voltas constantes e expondo-a
à idiotice cotidiana
das relações e dos relacionamentos,
até que se torne importuna como uma estranha.

01 Junho, 2008

Conversas sem fim

Encontro uma amiga, maaaal, e "a conversa" é retomada:

- O que foi, não estás contente?

- Não, e tu, estás?
- Não. O que é que nos falta?
- Eu quero ser feliz!
- Mas, ... isso é uma questão de atitude, tu e somente tu é quem podes deixar vir a ser a tua felicidade. Não importando como o mundo está, não importando, portanto, como estão as outras pessoas, inclusive não importando como tu estás...
- Essa é uma velha conversa. Porém, se quero, então, por que não sou feliz?
- Talvez não seja uma questão de querer ...
- Mas, se não depende de eu querer, e não importa o resto, então, como se é feliz?
- Não, não é assim, não tem esses dois "se": acontece às pessoas o que elas chamam, por ignorância, a sua felicidade!
- Então, é uma questão de deixar ser (de serenidade, a la Heidegger)!
- Não, isso não; antes, de dispor-se para o acontecimento jovialmente, no sentido exato da palavra grega Galene e da palavra alemã Heiterkeit.
- Isso é o que há, então?
- Isso é o que não há, não é algo, nem um estado, advém tal como um acontecimento!
- Isso me deixa mais infeliz. Ouviu? Estás contente agora?
- Não, contente não, embora também não infeliz.
- Tu és mau, sabia (dito com o sotaque carregado dos gauchos de POA).
- Não apenas mau, perverso também. O que não significa que o verso inverso seja o bem!
- Tchau, que hoje tu tás demais, digo, demal...

16 Março, 2008

Já era, embora ainda esteja aí!

O conceito de luta justa e franca, fundado nas experiências vividas mais básicas da relação homem a homem, tem como correlata a figura do guerreiro e do lutador como figura ética ainda hoje reconhecida. Quantas vezes ainda ouvimos a expressão “lutador” como elogio moral? Quantas vezes ouvimos a expressão “ele é um bandido, mas tem ética”, ou ainda “a moral dos criminosos é rígida”. Nessas ocasiões o tom sempre é de respeito. Todavia, que se trata de uma figura ética ultrapassada e até indesejada, nesses tempos de guerras comerciais e lutas pseudo-ideológicas, conduzidas mais pelos comerciantes jornalistas e banqueiros, isso se sabe. Com pouquíssimas exceções, as lutas e guerras atuais são realizadas reativamente e por pessoas sem nenhum ethos guerreiro. Por um lado, temos os guerrilheiros corruptos, que lutam por falsos ideais e usam dos meios mais imorais apenas para sobreviver, pois não têm nenhum objetivo vital para além de sua própria existência miserável e vazia de futuro. Por outro, temos os soldados, policiais e seguranças, pagos e com aposentadoria certa, que lutam por causas alheias aos seus interesses e usam da tecnologia para não se exporem à luta franca e direta. O âmbito aberto pela atual civilização, na sua estrutura e conteúdo, dispensa a figura do guerreiro e do caçador. Se aplicássemos integralmente os princípios e potências configuradoras da nossa atual forma de vida (os conhecimentos, as regras de convivências e de resolução de conflitos, as formas de educação e de produção, etc.) não seria necessário recorrer mais ao lutador (guerreiro, caçador, matador). Por isso, os exemplares atuais são mais formas decadentes, extemporâneas e doentias. Ao lado do Padre, do Monarca, do Juiz, do Santo, essa figura agora aparece sob a forma do simulacro e do falso, pois o fundamento de sua efetividade e necessidade não existem mais, tal como não existem mais as do Corneteiro e do Astrólogo. Ainda assim esses tipos nos encantam, fazendo estragos e desviando do principal muitos dos nossos.

15 Março, 2008

Nesse mundo enganoso,

Não, não se trata de então renegar a vida! Antes, muito antes recusamos essa forma de vida, e não aceitamos essas opiniões sobre a vida que ora a colocam no chão ora no inferno ora no céu. Não somos crianças, e também não somos velhos para nos iludirmos com imanências fáceis e transcendências heróicas. A vida é jogo, é caos, é a inesperada evanescência dos limites e objetivos, é abertura para o não desejado, seja a criação seja a destruição, o bem ou o mal. A vida, não importa se isso importa, é a própria ausência de garantias e direitos; ou melhor, nada é senão essa insistência na desnecessidade de garantias.

Falam da alma, mas miram o corpo.

A Igreja Papa Bento S.A. entrou na justiça humana para impedir a distribuição de camisinhas e de pílulas do dia seguinte. Por quê? Isso não iria proteger as pessoas e evitar gravidez indesejada? Sim. Mas a Igreja Cia. Ltda. diz que faz o que faz em nome do espírito e da pureza ética! A despeito da vida? Não, sua boba! Por despeito das delícias da carne e dos delírios gozosos do sexo! Ora, e eles não gostam, por acaso não nasceram disso? Que nada, gostam e praticam sempre que fodem, e olha que podem, pois há gentes e inocentes que a eles se entregam de corpo e alma, não tem! Bem, então, qual é a razão para entrar na justiça? Que razão que nada! É tudo uma questão de marketing, de proselitismo e hipocrisia. A verdade é que Cristo amou e fez o que bem entendeu, viveu sua vida plenamente sem se preocupar com nada, a não ser com a exploração dos miseráveis pelos abonados, mas os padrecos querem o poder de decisão sobre a vida dos outros, e sobretudo querem que os outros lhes paguem as despesas! Então, é por isso que os padres tratam as freiras como escravas: eles não sabem e não podem amá-las como mulheres? É, é isso. Ao invés de cuidarem do espírito os padres só se preoocupam com o corpinho. Taraaaaaados!

06 Março, 2008

O que, afinal?

O que, afinal, me leva sempre a ressaltar a “nota azul”, o ritmo trágico da vida? Não há dúvidas, aquilo mesmo que me torna irônico diante do !humano!. As tristezas, as alegrias, violências e prazeres, sociabilidades e ufanidades, tudo, tudo logo me entedia. Mais ainda, me enoja, pois não posso deixar de ver por detrás, de relance, o brilho reluzente das pequenas mesquinharias, o tilintar das continhas, dos negócios dos cálculos dos interesses que dirigem as vidas das gentes por demais. O que são as gentes, a vida grupal, a existência em massa? A resposta é tanto óbvia quanto desejada e buscada com sofreguidão: a falta de espírito, a falta de noção do digno e do indigno. Pois, o que é o espírito, a altivez, se não for o não negociar, o não fazer contas antes de decidir e depois de agir? Hein? Hein?