não o cru, mas o cruel
A natureza pode ser perversa, pervertida, cruel, má? Muitas vezes falamos assim, atribuindo à natureza tais predicados. Todavia, isso talvez não tenha sentido. Pois, tais predicados cabem apenas a um ser consciente de si e do como ele afeta os demais nas suas condições afetivas e de existência. Agora, se não quisermos nos catapultar para fora da natureza, nós temos de pensar sobre a origem da nossa crueldade e malinidade. Isso faz parte da nossa natureza? Ou foi uma invenção histórica? Ou um dom do além? Nenhuma dessas resposta é satisfatória. Não temos uma história, uma natureza, um além, que garantiria essas diferenças em relação às outras naturezas. Logo, é forçoso concluir, a palavra “cruel” diz muitas coisas diferentes. Talvez fosse mais sensato dizer que a natureza é crua, o humano cruel, que a natureza é o verso, o humano o perverso! Um ser humano que se comporta tal qual um animal, planta ou pedra rolante, diz-se, é uma besta estúpida. Mas, um animal, planta ou pedra nunca são bestiais ou estúpidos, embora essa fala sugira isso. Note-se, contudo, que disso não se segue que as naturezas sempre sejam “boas” ou “não-violentas” ou “não-destrutivas”. Ao contrário, ao contrário. Justo esse é o cerne do adjetivo “besta estúpida” aplicado a um humano: o agir tal como uma pedra rolante, uma planta ou um animal na sua deriva vital, sem sopesar o que está fazendo, isto é, sem fazer o nexo entre a ação, as condições da ação e as consequências da ação, sobretudo no que se refere aos outros, sejam eles quais forem. Assim dizemos que o comportamento humano atual em relação ao meio ambiente é o de uma besta estúpida, e com razão. Contudo, não diríamos isso assim, sem aspas e reticências, de uma bactéria que no seu afã vital destrói toda a vida ao seu redor até solapar a sua própria. O humano é cruel em relação as outras espécies, a bactéria é o que ela é. O pressuposto dessa distinção é que nós podemos diferente, e ela não. Dito de modo mais específico: o pressuposto é triplo; primeiro, que nós podemos ser conscientes da direção da nossa deriva, e, segundo, que nós podemos alterar essa direção, pois, terceiro, nós podemos alterar a forma e o sentido de nossa existência. Essa é a nossa natureza, aquilo que nos faz distintos de uma pedra, de uma planta e de um animal. O predicado “besta estúpida” nos lembra, a contrario, dessa distinção, ao indicar a falha. Todavia, ainda assim vale que para nós “voltar a ser naturais” é tão inumano e ilusório quanto “deixar de ser naturais”. Frente à crueza natural, que tanto nos repugna e atrai, não nos resta senão apostar no queimar o barro. Embora não possamos abandonar a lama, nem por isso a desejamos crua. Essa é a crueldade que nos constitui como não-crus!
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