Se possível, desconfiar sempre das historietas dos discípulos
O que mais me incomoda nos debates filosóficos no nosso ambiente acadêmico é a visão distorcida da história do pensamento propiciada pelas "estórias" contadas, como se fosse a própria verdade, pelos comentadores e discípulos, às vezes pelos próprios pensadores. Kantianos, Heidegerianos e Wittgensteinianos são os mais afeitos a contar como as coisas aconteceram de modo a que Kant, Heidegger e Wittgenstein apareçam como os heróis do pensamento. A moral é sempre a mesma: esse ou aquele autor é a verdade, logo, não se pode pensar assim, não se deve dizer isso ou aquilo, depois desse ou daquele autor. O tom moral de suas argumentações e historicizações é patente, e falso. Em geral, essas seitas pensam que justamente se pode passar de K diretamente para H e W, sem nenhuma mediação histórica, e que esses marcos estão eles mesmos fora da história, pois a história da filosofia conta-se a partir deles. Mas o mais intragável é a afirmação implícita de que esse caminho é necessário para o pensar atual, que esses pensadores são indepassáveis. A real é que o são realmente, mas apenas para os seus crentes! A passagem de Husserl a Heidegger, ou de Frege a Wittgenstein é um fato, apenas; pois essa factualidade não é fatal, visto ser ela mesma contingente! Não basta desconfiar, faz-se necessário propriamente dispensar essas histórias.
Os erros históricos advém de vícios metódicos reiterados sem nenhuma reflexão. Um desses vícios consiste em fixar dois autores, por exemplo, Hume e Quine, e então fazer o sofisma de deduzir um esquema de história do pensamento que permita passar-se do primeiro ao último, encaixando todos os autores e obras intermediárias nesse esquema. O que não encaixa simplesmente é deixado de lado como não importando.
Os erros históricos advém de vícios metódicos reiterados sem nenhuma reflexão. Um desses vícios consiste em fixar dois autores, por exemplo, Hume e Quine, e então fazer o sofisma de deduzir um esquema de história do pensamento que permita passar-se do primeiro ao último, encaixando todos os autores e obras intermediárias nesse esquema. O que não encaixa simplesmente é deixado de lado como não importando.
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