os novos cretenses
Impressiona-me a fala que não quer falar, o discurso que não discursa, a posição que não se põe - imposturas, mas desejadas, digo, premeditadas - ditadas pela premência. Sobretudo na ala das humanidades, ninguém mais ousa pretender a verdade, ou o conhecimento, ou a prova e a demonstração; e todavia, ainda falam em justiça, em dever, em direito!
Essa impressão logo passa, como o arco-íris para o caminhante. Então percebo a razão genial que levou Flusser, um dos ideólogos desse estado de coisas, a usar a expressão "cretino".
Como se sabe, "cretino" é uma palavra pejorativa e negativa no uso atual da língua, sem possibilidade de uso positivo. Dizer que alguém é cretino é fazer uma ofensa. Mas, pensando para além do uso, podemos ver que essa palavra tão somente indica que se trata de alguém dado a cretinices, típica dos cretenses, cujo protótipo foi delineado na filosofia, na lógica e na teologia, como aquele que afirma mentir, quando diz a verdade, mente, quando mente, diz a verdade.
Bem, não é isso que fazem esses cretinos inconscientes, quando professam teorias e fazem afirmações, mas renegam a pretensão à verdade? Dizem, "Vamos conversar, mas todo mundo tem razão e ninguém a verdade, por que isso é o que não há".
O que assim se tenta, é um falar sem fazer, uma dicção sem ação. Sim, há um querer por detrás desse desdizer, há uma intenção subjacente a essa inação. Que isso não se mostre apenas é indício de pudor, e nisso está o ser do cretino, no sentido hodierno da palavra, como dissimulação dissimulada.
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