10 Novembro, 2011

textos cheios de graça ...

Quando lemos as páginas de livros como Natural:mente e Língua e Realidade, de Flusser, podemos chegar a vislumbrar o efeito encantador dos últimos escritos de Wittgenstein e Heidegger para o exercício da filosofia. Páginas e páginas improdutivas, no melhor sentido do termo, pura Algarávia, apenas Conversa Fiada. A atitude assumida pelo narrador é explicitamente "irônica",  jamais irada como a socrática. Ao final da leitura não se tem nada, pois não se tentou nada. Todavia, não se pode acusá-lo jamais de moralista ou dogmático, mas também não de cético ou niilista, e muito menos cínico. Tais posturas, mesmo ao sorrir, mordem e  indignam; ferem quando aderem, excluem ao incluir. Esse não, ele se mantém na finura da palavra, na fissura do verbo bem educado, ao ponto de ousar um texto cheio de graça, e sem espírito.
Com efeitos ainda seducentes, embora deletérios, nesse tipo de livro não temos mais aquela pré-tensão armada pelas tentações do OU angústia OU tédio, ou ainda pelo OU escravidão OU dominação, OU altivo OU lascivo. O que se lê, melhor, se vê, é um frívolo deixar-se ir pela palavra sem por quê nem para quê, aquela palavra que um Aristóteles já recusara com toda a palavra de que ele era capaz. O mais inominável é que o autor usa o esquema nietzschiano, superficial por profundidade, para "justificar" sua leviana indisciplina filosófica. E nisso ele é genial, sem todavia ir além do raso. 
Heidegger se apropriou da expressão "Gelassenheit" para indicar essa atitude, de fim da filosofia, que muitos traduzem por serenidade, sem perceber que essa palavra diz outra coisa. A palavra "serenidade" pode também traduzir a expressão "Heiterkeit", aquela usada por Nietzsche para indicar o "fim" da filosofia. "Heiterkeit" traduz em alemão o que a palavra grega "Galene" dizia, a saber, a condição do sol da manhã, céu claro, mar calmo e ventos suaves, promessa de boa navegação. Vê-se que a palavra escolhida por Heidegger aponta para o deixar ser, a passividade diante do acontecer, o entardecer do espírito que se sabe no fim, enquanto que a palavra de Nietzsche é um convite à ação, indica a atividade para o acontecer, o espírito de aventura. Um, diante do pão e do vinho, pensa na vida, outro aí celebra a morte; nenhum nenhoutro - à margem, vê-se a dupla ilusão.
Flusser pensa em termos heideggerianos, sem o dizer, a condição deletável da filosofia a partir de Wittgenstein - enfim, esses acabamentos do espírito do século passado. Todo fim, porém, é o sinal de um início diferente. Ao dedicar-se a pensar o pensamento como imagem, como desenho, ele contenta-se com esboços. Por isso, o introdutor do livro Língua e Realidade, depois de quarenta anos, não consegue dizer o que o livro disse de importante, mas apenas que ele é importante. Ora, o que mais se mostra nesse livro é que o pensamento de Flusser ali expresso é refutado por cada parágrafo do texto. As teses de Flusser sobre as diferenças intransponíveis das línguas desmentem-se pela existência do próprio texto de Flusser que diz em bom português mediano as diferenças entre as línguas, por conseguinte, que as sobrepassa. A autonomia semântica do texto se mostra aí fatal para o que ele quer dizer, pois o seu texto desdiz o que ele diz, a contrario, o seu texto diz o que ele desdiz.
O livro dá em nada, nonada! Os filósofos afeitos ao fim de tarde, quando deixamos ser o que já aconteceu, e somos mais para adiamentos do que para aviamentos, dirão, está bem assim, é isso o que há, é isso o que se diz, cabe apenas dizer nada de nada, é isso aí o que nos resta. Os filósofos dos passeios e sanatórios, das academias e estações de inverno, afeitos a uma Terapia, dirão, isso faz bem, assim é melhor, antes nada do que alguma coisa. A desoperacionalização do filósofo é alcançada por ambas essas vias. E assim também desonerado, ele pode receber seu salário e sua bolsa sem pestanejar, basta falar por falar.
As tentativas de dizer o que não se pode dizer fracassam justamente quando se diz que isso e aquilo não se pode dizer, quando alguém diz que isso não se diz: invariavelmente a forma e o sentido desses discursos dizem o que é dito indizível. A atitude de um Crátilo e um Pirro ainda hoje são viáveis, por mais fulgurantes que esses gorjeios gorgianos o sejam. No seu auge, eles não se despotenciaram, pois isso significaria desvirtuar-se. 
Mas, que fala é essa a minha? Quem hoje ainda sabe o que é, no sentido de exercitar, virtù!

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